Porque é que o meu cão puxa a trela? (Não é dominância)

Porque é que o meu cão puxa a trela? (Não é dominância)

Se já foi arrastado pelo passeio por um cão determinado, provavelmente já se perguntou: porque é que o meu cão puxa a trela? A internet vai dizer-lhe que é uma questão de dominância, que o seu cão está a "tentar mandar". Essa explicação não é apenas inútil — está errada, e leva as pessoas a adotar métodos que produzem o efeito contrário. Na Bark Science trabalhamos exclusivamente com base em investigação comportamental revista por pares e em métodos de reforço positivo. Aqui está o que realmente se passa.

Puxar a trela tem a ver com excitação, não com poder

A principal razão pela qual os cães puxam é simples: o mundo lá fora é estimulante. As imagens, os sons e, sobretudo, os cheiros geram excitação e sobre-estimulação, e um cão nesse estado quer chegar a tudo isso o mais depressa possível. Puxar não é uma demonstração de estatuto. É um cão sobre-estimulado a fazer o que lhe parece natural.

A armadilha do autorreforço

Eis o mecanismo que torna o puxar tão difícil de eliminar. Cada vez que o seu cão puxa e o passeio continua para a frente, o cão obtém exatamente o que queria — aproximar-se da coisa interessante. O movimento para a frente é a recompensa. Puxar é, por isso, autorreforçado: cada puxão bem-sucedido consolida um histórico cada vez mais forte de puxar. O seu cão não está a ser teimoso; está a ser recompensado, dezenas de vezes por passeio, pelo comportamento exato que está a tentar eliminar.

O reflexo de oposição

Há um segundo fator. Quando um cão sente uma pressão constante na trela, muitos tendem a resistir contra ela — quanto mais tensa fica a trela, mais forte é a força no sentido oposto. A isto chama-se frequentemente o reflexo de oposição. (Vale a pena ser honesto: este termo aparece muito mais em artigos sobre treino do que na literatura académica, pelo que deve encará-lo como uma descrição útil do que observa, e não como ciência estabelecida.) A conclusão prática mantém-se de qualquer forma: uma trela tensa e rígida tende a produzir mais puxões, não menos. A tensão constante trabalha contra si.

Porque é que a "dominância" é um beco sem saída

A teoria da dominância tem origem em ideias antigas sobre alcateias de lobos — o "alfa" a lutar para chegar ao topo. O problema é que este modelo já foi refutado. O biólogo cujo trabalho popularizou esta ideia, David Mech, estudou uma alcateia de lobos selvagens durante 13 anos e nunca assistiu a uma disputa de dominância; os lobos selvagens vivem em grupos familiares liderados pelos progenitores através da cooperação, não do combate. Mech já não utiliza a palavra "alfa". E os cães são animais domésticos, geneticamente distintos dos lobos, pelo que os modelos de alcateia são um enquadramento inadequado para o comportamento canino.

Isto é importante porque a teoria da dominância empurra as pessoas para o uso da força — correções com a trela, coleiras de estrangulamento e de pontas, intimidação. As organizações veterinárias de comportamento animal desaconselham todos estes métodos. A principal razão é simples: o stress e o medo inibem a aprendizagem em todos os animais. Um cão stressado por uma correção com a trela é um cão que aprende mais devagar, não mais depressa.

De onde vem a ideia do "reflexo de liberdade"

Também pode encontrar a resistência à pressão descrita como um "reflexo de liberdade". Esta expressão remonta a Pavlov, que a usou para descrever um cão que resistia fortemente ao arnês no seu laboratório. É uma imagem útil, mas deve ser encarada com reservas — a maioria dos académicos considera que Pavlov generalizou em excesso a partir do comportamento de um único cão e que foi incorreto classificar a resistência à contenção como um verdadeiro reflexo. A lição prática mantém-se independentemente disso: a pressão tende a gerar contrapressão, pelo que combater um cão que puxa com uma trela cada vez mais tensa normalmente agrava o problema.

A solução com reforço positivo

Como puxar é recompensado pelo movimento para a frente, a solução passa por inverter a equação: uma trela solta faz o passeio continuar, e uma trela tensa faz-nos parar. Recompensa-se a posição desejada — o cão a andar perto de si com a trela sem tensão — e remove-se a recompensa (o avanço) no momento em que a trela fica tensa. Combine isso com equipamento bem ajustado, como um arnês confortável, e vai ensinar o seu cão que andar ao seu lado, e não à sua frente, é o que lhe abre o caminho para o mundo. Os mecanismos exatos estão desenvolvidos nos nossos outros guias sobre passeios.

Tenha paciência — puxar tem um longo historial

Se o seu cão puxa há meses ou anos, lembre-se de que cada passeio reforçou esse hábito dezenas de vezes. O movimento para a frente é uma recompensa poderosa, e o seu cão acumulou um historial de reforço muito sólido em relação ao puxar. Desfazer isso exige consistência: a regra de que a trela solta avança e a trela tensa para tem de ser aplicada em todos os passeios, caso contrário o seu cão continuará a apostar que desta vez vale a pena puxar. Comece em locais com poucas distrações, onde o sucesso seja fácil, mantenha as sessões curtas e positivas, e vá aumentando gradualmente. O objetivo não é dominar o seu cão pela força — é fazer com que andar ao seu lado seja a opção mais recompensadora disponível.

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References

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