
O Meu Cão Deixou de Obedecer de Repente: A Adolescência Canina Explicada
O seu cachorro, até ontem tão obediente, chega aos seis ou oito meses e age como se nunca tivesse ouvido a palavra "vem" na vida. Se o seu cão deixou de obedecer de repente, respire fundo: esta é uma das fases mais previsíveis na vida de um cão, e não é sinal de que o treino correu mal. Na Bark Science baseamos tudo em investigação científica revista por pares e utilizamos exclusivamente métodos de reforço positivo. Veja o que se passa no cérebro do seu adolescente de quatro patas.
A adolescência é real, e a regressão é normal
A adolescência canina começa tipicamente por volta dos seis meses de idade e pode durar até cerca dos dois anos, consoante a raça. Durante este período, a regressão no comando de chamada é um fenómeno de desenvolvimento previsível — impulsionado pela reorganização neurológica, pelas alterações hormonais e por um mundo que de repente parece muito mais interessante. Não é uma quebra na vossa relação nem uma falha no treino que fez anteriormente.
Também não está a imaginar a frequência com que isto acontece. Num grande estudo do Royal Veterinary College que acompanhou os chamados "cachorros da pandemia", 97% dos donos relataram pelo menos um comportamento problemático até aos 21 meses de idade, e 52% reportaram dificuldades no comando de chamada. Um cão adolescente que o ignora é a regra, não a exceção.
O comando de chamada não desapareceu — só está difícil de aceder
Aqui está a parte tranquilizadora: o seu cão não esqueceu o comando de chamada. O comportamento continua na memória; apenas ficou temporariamente mais difícil de aceder, porque o stress, a excitação e motivações concorrentes bloqueiam a sua recuperação. A prova é simples — esse mesmo cão que o ignora no parque normalmente responde na perfeição ao comando de chamada em casa, numa divisão sossegada. A competência está intacta. O problema é o acesso.
O que se passa no cérebro
Durante a adolescência, o sistema límbico — o centro emocional — torna-se mais ativo, enquanto o córtex pré-frontal, responsável pelo controlo dos impulsos, ainda está em desenvolvimento. O cérebro está também muito ocupado com a poda sináptica, a afinar as suas ligações ao reforçar as vias mais utilizadas e a eliminar as que ficaram em desuso. O resultado é um cão com emoções intensas e uns "travões" ainda por terminar. O comando de chamada exige várias coisas em simultâneo — reconhecer o sinal, valorizar a resposta, resistir às distrações e regular as emoções — e a adolescência compromete tudo isso ao mesmo tempo.
O maior risco: deixar o cão recompensar-se a si próprio
Esta é a parte que determina como o seu cão vai sair do outro lado desta fase. Os cães adolescentes que têm permissão para se recompensar a si próprios — perseguir animais selvagens, ignorar o comando de chamada sem consequências, brincar com outros cães sem autorização — aprendem que tomar as próprias decisões é mais recompensador do que prestar atenção ao dono. Esses padrões ficam profundamente enraizados e exigem um treino extenso para serem revertidos. A liberdade que dá a um adolescente que ainda não está preparado para ela é uma liberdade que lhe vai custar mais tarde.
Como atravessar esta fase
Há duas coisas que mais importam durante este período:
- Gira o ambiente para que a autorrecompensa não aconteça. Use uma trela longa em espaços abertos para que o seu cão não possa praticar ignorá-lo e desaparecer atrás de um esquilo. A prevenção é sempre melhor do que a correção.
- Continue a recompensar generosamente o comportamento que quer ver. Esta não é a altura de presumir que o seu cão "já devia saber". Recompense ricamente as vezes em que ele se aproxima de iniciativa própria e responde ao comando de chamada, e proteja a palavra que usa para chamar — nunca puna uma volta, porque punir um cão que regressa ensina-o que voltar pressagia algo mau.
A forma como enquadra o problema também é importante. Se decidir que o seu cão "esqueceu", tende a entrar em pânico e a aumentar as correções, o que danifica a confiança e a motivação. Se perceber que o comando de chamada está apenas "temporariamente inacessível", mantém-se paciente e gere a situação — o que protege a fiabilidade a longo prazo.
Por que a paciência supera a punição neste momento
É tentador ser mais firme quando o seu adolescente começa a ignorá-lo — acrescentar correções, ser mais severo, "mostrar quem manda". Este é precisamente o movimento errado na altura mais errada. O stress e o medo inibem a aprendizagem em todos os animais, e o cérebro de um adolescente já tem dificuldade em regular as emoções; acrescentar pressão torna o cérebro pensante ainda menos disponível. A punição arrisca também danificar a confiança e a motivação nas quais vai precisar de se apoiar para atravessar esta fase. Os cães que saem da adolescência como adultos equilibrados e responsivos são normalmente aqueles cujos donos se mantiveram pacientes, continuaram a recompensar as escolhas certas e geriram o ambiente em vez de escalarem o conflito.
Isto é uma fase passageira, não uma sentença perpétua
Aqui está a parte encorajadora: a adolescência acaba. O cérebro termina a sua reorganização, as hormonas estabilizam, e o controlo dos impulsos que estava em falta entra em funcionamento. O cão com quem está frustrado hoje não é o cão que vai ter aos três anos — desde que o proteja de repetir os hábitos errados entretanto. Pense nesta fase como uma obra em curso. O seu trabalho não é lutar contra a obra; é manter o seu cão em segurança e bem recompensado até o edifício estar pronto. Mantenha a palavra de chamada "limpa", mantenha a trela longa em espaços abertos e continue a recompensar as aproximações espontâneas. O seu eu do futuro vai agradecer-lhe.
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A adolescência é temporária, mas os hábitos que se formam durante ela não são. Começar já com o plano de gestão e reforço positivo certo compensa durante anos.
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References
What are Reward-Based Training Methods for Dogs (and Cats)? — AVSAB
Veterinary behaviorists: No role for aversive dog training practices — AVMA
Reliability and Validity of a Dog Personality and Unwanted Behavior Survey
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