Medo e Ansiedade em Cães: O Balde do Stress e o Problema do Cortisol

Medo e Ansiedade em Cães: O Balde do Stress e o Problema do Cortisol

Um cão com medo ou ansiedade não está a ser difícil — está sobrecarregado. Quer isso se manifeste como encolhimento, ladrar, puxar a trela ou bloqueio total, o medo e a ansiedade em cães passam todos pelo mesmo mecanismo subjacente: a resposta ao stress. Perceber como esse mecanismo funciona muda completamente a forma como pode ajudar o seu cão. Na Bark Science baseamos tudo em investigação comportamental revista por pares e utilizamos exclusivamente métodos baseados em recompensa.

O medo é em parte involuntário, em parte aprendido

O medo nos cães resulta de duas componentes: respostas involuntárias que o seu cão não consegue controlar — dilatação das pupilas, tremores, pelo eriçado — e comportamentos voluntários como recuar ou ladrar. A parte involuntária é a chave: um cão genuinamente assustado não está a "escolher" portar-se mal. O sistema de alarme do organismo assumiu o controlo.

O problema do cortisol

Quando um cão encontra um fator de stress, o sistema de stress do cérebro entra em ação e liberta hormonas, incluindo o cortisol. O cortisol é útil em doses curtas — faz parte da forma como o organismo se mobiliza perante uma ameaça. O problema surge quando nunca tem oportunidade de ser eliminado.

A investigação em bem-estar animal torna o custo concreto. Num estudo com 92 cães de companhia, os cães treinados com uma elevada proporção de métodos aversivos apresentaram aumentos significativamente maiores de cortisol salivar após o treino do que os cães treinados com recompensa — e revelaram-se mais "pessimistas" num teste cognitivo posterior, o que sugere que o stress moldou o seu estado emocional muito além do próprio treino. O stress crónico com um sistema de stress persistentemente hiperativo é genuinamente prejudicial para os cães e, com o tempo, reduz a capacidade de aprendizagem e o controlo dos impulsos. Um cão cronicamente stressado tem, literalmente, mais dificuldade em aprender qualquer coisa nova.

(Uma ressalva honesta levantada pelos próprios investigadores: o cortisol utilizado de forma isolada é uma medida imperfeita de bem-estar, e trabalhos mais recentes propõem acrescentar indicadores como a variabilidade da frequência cardíaca. O panorama geral — de que os métodos aversivos aumentam os marcadores de stress — mantém-se em vários estudos.)

O balde do stress e a acumulação de gatilhos

Este é o modelo mais prático de toda a ciência do comportamento: o balde do stress. Imagine o seu cão a carregar um balde. Cada fator de stress — um camião barulhento, um cão desconhecido, um momento tenso no veterinário — deita água no balde. As hormonas de stress de cada evento não desaparecem de imediato, por isso acumulam-se. Quando o balde transborda, surgem os comportamentos de transbordamento: ladrar, puxar a trela ou bloqueio total.

É por isso que a acumulação de gatilhos é tão importante. Um cão que já encontrou dois cães e ouviu uma britadeira esta manhã tem o balde quase cheio. O próximo gatilho — um que ele poderia ter ignorado num dia calmo — fá-lo transbordar. O cão não "regrediu"; o balde já estava quase cheio. Dar ao seu cão tempo de recuperação entre eventos stressantes, para que o balde possa esvaziar, é uma das ferramentas mais subestimadas que tem ao seu dispor.

Porque não se consegue treinar um cão acima do limiar emocional

Medo e aprendizagem não coexistem. Quando um cão ultrapassa o seu limiar emocional, o cérebro emocional domina e o cérebro racional desliga-se — pelo que a modificação comportamental simplesmente não funciona nesse estado. Esta é a principal razão pela qual treinar um cão assustado "não está a resultar": o cão está acima do limiar e nesse estado não é possível qualquer aprendizagem. A solução passa sempre por reduzir a intensidade — mais distância, menos duração, uma versão mais fácil — até o cão estar suficientemente calmo para conseguir pensar.

O caminho do reforço positivo

Como o medo é um estado emocional, a solução duradoura é mudar a emoção, não suprimir o comportamento. Isso significa trabalhar abaixo do limiar e utilizar a contracondicionamento — associar a coisa assustadora a algo maravilhoso — para que a reação instintiva do seu cão mude gradualmente de "ameaça" para "algo bom." A punição faz o oposto: acrescenta stress a um balde já a transbordar e aprofunda o medo.

Identifique os sinais precoces

Muitas vezes é possível ver o balde a encher antes de transbordar, se souber o que procurar. Os cães emitem sinais de stress de baixa intensidade — bocejar sem estar cansado, lamber os lábios ou o nariz sem comida por perto, virar a cabeça ou o corpo, farejar o chão de repente, ficar imóvel. São formas do seu cão pedir mais espaço ou uma situação com menos pressão. Detetá-los cedo permite-lhe ajustar antes de o seu cão ultrapassar o limiar e entrar numa reação de medo completa. Ignorá-los, ou forçar o seu cão a ultrapassá-los, é a forma como uma situação controlável se torna num colapso — ou, com o tempo, como um cão aprende a saltar os avisos precoces por completo.

Não castigue um cão com medo

É necessário dizê-lo claramente: punir comportamentos motivados pelo medo agrava a situação. Um rosnar, um latido ou um estalo de dentes de um cão assustado é comunicação, não desafio, e o medo subjacente é involuntário. Aplique uma correção e estará a deitar mais água num balde já a transbordar, a aprofundar o medo e a arriscar ensinar o seu cão a suprimir os sinais de aviso enquanto continua igualmente assustado — uma combinação genuinamente perigosa. A investigação é consistente em demonstrar que os métodos aversivos aumentam os marcadores de stress sem melhorar os resultados, razão pela qual as organizações de medicina comportamental veterinária recomendam especificamente métodos baseados em recompensa para o medo e a ansiedade.

Ajude o seu cão ansioso da forma certa

Quer o medo do seu cão se manifeste como angústia de separação, reatividade ou ansiedade generalizada, o primeiro passo é identificar o gatilho e manter o seu cão abaixo do limiar emocional.

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References

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